Tuesday, October 17, 2017

RETALHOS


Não esperarei mais por tua volta.
A porta está aberta, a fechadura destravada,
Mas, as dores do passado estão mortas.

Nem sei se terei mais alegria
Na tua companhia. E se chegas serás uma incógnita
Depois de tantos dias de silêncio e esquecimento.

Serás, por acaso, a mesma nos carinhos e beijos?
Ou, pelos caminhos, na busca de esperança,
Em imaginários desejos e lábios outra se fez?

Nem sempre depois da tempestade a vida recompõe
O que as águas e os ventos destruíram. São fatos.
A passagem pode não ser visível e ser mortal.

Na realidade do viver se afoga a utopia
E o ponto na distância some, ou se agiganta,
Dependendo do olhar. Talvez não haja o que restaurar...

Talvez, quando voltares, se rasgue a fantasia,
Todo o passado seja um mundo fictício; o amor, um vício.
Nosso romance, uma mera ilusão.


Não esperarei tua chegada... partido estou na partida.

Ilustração: Minha Vida Literária

Sunday, October 15, 2017

POEMINHA DO AMOR INSATISFEITO


Este desejo tão impuro e tão carnal
Que é puro amor por ti
Me faz dizer,
Nas noites em que rolo na cama,
Nomes e coisas imorais,
Que nem penso em te falar,
Mas, todas as palavras se traduzem em te amar
E te fazer de gato e sapato,
Quando te pegar,
Como se ainda fosse 
O que sei que não sou,
Contudo, me perdoa.
Isto é amor.


Ilustração: O Segredo. 

Outra poesia de Fernando Bandini

 
GIANO BIFRONTE
            
Fernando Bandini

Lui non ha mai diviso
presente da passato.
Perché dietro il suo viso
non c’è nuca ma un altro viso ancora.
Segue senza girarsi il lungo volo
del falco pellegrino dall’aurora
fino al ponente che si oscura, dove
farà il suo nido
in dirupi o su rocche.

Non esiste per lui scoscendimento
fra il primo e il dopo, gli esce da due bocche
un solo occhiuto grido.


JANO BIFRONTE

Ele não separou nunca
o presente do passado.
Porque por trás do seu rosto
não há nuca, senão outro rosto.
Segue sem voltar o longo voo
do falcão peregrino desde aurora
até o poente que escurece, onde
vai fazer o seu ninho
entre despenhadeiros ou rochas.

Não existe desprendimento para ele
entre o antes e depois, sai de suas duas bocas
um só grito vigilante.


Ilustração: CiMarquesArtes – blogger. 

Friday, October 13, 2017

Uma poesia de Fernando Bandini

 
RISSA                                                                           
Fernando Bandini

Asciugo col fazzoletto
il sangue che mi cola
dal labbro.


Non ti ascolto. Sono sordo, sì
sono sordo. Va’ tu
che sei così bravo
a recuperare i cavi
del tramonto
adesso che scende la notte.


Mi rinfacci l’ombra
come se a seminarla
fossi stato io.


DISCUSSÃO

Seco com o lenço
o sangue que me cai
pelos lábios.


Não te escuto. Sou surdo, sim,
sou surdo. Vê tu,
que és tão ligeira

e recupera os raios
do ocaso
agora que a noite desce.


Me jogas no rosto a sombra
como se fosse eu
quem a semeou.

Ilustração: Uol Estilo. 


E, mais uma vez, ainda Dulce María Loynaz

Desprendimiento                                                    
Dulce María Loynaz

Dulzura de sentirse cada vez más lejano.
Más lejano y más vago. Sin saber si es porque
Las cosas se van yendo o es uno el que se va.
Dulzura del olvido como un rocío leve
Cayendo en la tiniebla. Dulzura de sentirse
Limpio de toda cosa. Dulzura de elevarse
Y ser como la estrella inaccesible y alta,
Alumbrando en silencio.
¡En silencio, Dios mío!

DESPRENDIMENTO

Doçura de sentir-se cada vez mais distante.
Mais distante e mais vago. Sem saber se é porque
as coisas se vão indo ou estão indo.
Doçura do esquecimento como um orvalho leve
caindo na escuridão. Doçura de sentir-se
limpo de todas as coisas. Doçura de elevar-se
E ser como a estrela inacessível e alta,
iluminando em silêncio.
Em silêncio, Deus meu!


Um poeminha de Tagore





Rabindranath Tagore

Clouds come floating into my life,
no longer to carry rain or usher storm,
but to add color to my sunset sky.


As nuvens flutuam na minha vida,
não para levar mais chuva ou inaugurar a tempestade,
porém, para adicionar cor ao meu pôr do sol no céu.


Ilustração: Tripadvisor. 

Outra poesia de Federico García Lorca


Vuelta de paseo
Federico García Lorca
Asesinado por el cielo.
Entre las formas que van hacia la sierpe
y las formas que buscan el cristal,
dejaré crecer mis cabellos.
Con el arbol de muñones que no canta
y el niño con el blanco rostro de huevo.
Con los animalitos de cabeza rota
y el agua harapienta de los pies secos.
Con todo lo que tiene cansancio sordomudo
y mariposa ahogada en el tintero.
Tropezando con mi rostro distinto de cada día.
¡Asesinado por el cielo!
Volta do passeio
Assassinado pelo céu.
Entre as formas que vão até a serpente
E as formas que buscam espelhos,
Deixarei crescer meus cabelos.
Com a árvore de tocos que não cantam
E o menino com o rosto branco de ovo.
Com os animalzinhos de cabeças quebradas
E a água salpicada dos pés secos.
Com tudo o que tem um cansaço surdo-mudo
E a mariposa afogada num tinteiro.
Tropeçando com meu rosto diferente a cada dia.
Assassinado pelo céu.

Ilustração: Uol.

E, novamente, a poesia de Julio Flórez Roa

Madrigal                          
Julio Flórez Roa

¿Me quieres? ¡Que tu acento me lo diga
Ante aquel sol que muere en el ocaso!
Tú, que mitigas mi pesar... ¡mitiga
Esta fiebre voraz en que me abraso!
Tembló su labio y balbució: ¡Lo juro!
Sus tachonadas puertas entreabría
La muda noche en la extensión vacía:
Y en mi espíritu lóbrego y oscuro...
En aquel mismo instante amanecía!

Madrigal

Me amas? Que o teu sotaque me diga
Ante aquele sol que morre no ocaso!
Tu que mitigas meu pesar... mitiga...
Esta febre voraz em que me abraso!
Treme seu lábio e balbucia: eu juro!
Sua cravejada porta entreaberta
A noite silenciosa na extensão vazia:
E no meu espírito sombrio e escuro ...
Naquele mesmo instante amanhecia!


Ilustração: Jñána Mudrá - blogger

Uma poesia de Robinson Jeffers


THE BEAUTY OF THINGS

Robinson Jeffers

To feel and speak the astonishing beauty of things — earth, stone and water,
Beast, man and woman, sun, moon and stars —
The blood-shot beauty of human nature, its thoughts, frenzies and passions,
And unhuman nature is towering reality —
For man’s half dream; man, you might say, is nature dreaming, but rock
And water and sky are constant — to feel
Greatly, and understand greatly, and express greatly, the natural
Beauty, is the sole business of poetry.
The rest’s diversion: those holy or noble sentiments, the intricate ideas,
The love, lust, longing: reasons, but not the reason.

A BELEZA DAS COISAS

Para sentir e falar da impressionante beleza das coisas- terra, pedra e água,
fera, homem e mulher, sol, lua e estrelas-
A beleza sanguínea da natureza humana, seus pensamentos, frenesis e paixões,
e a desumana  natureza da  realidade que se ergue-
Para o meio sonho humano; o homem, você poderia dizer, é a natureza sonhando, porém, rochas
e água e céu são permanentes- para sentir
, e grandiosamente compreender, e grandiosamente expressar, a natural
beleza, que é o único propósito da poesia.
O resto é diversão: aqueles sagrados ou nobres sentimentos, as ideias intrincadas,
o amor, o desejo, a saudade: razões, porém, não a razão.

Ilustração: Jonathan Edwards. 

Monday, October 09, 2017

Uma poesia de Milo de Angelis



Milo de Angelis

Il luogo era immobile, la parola scura. Era quello
il luogo stabilito. Addio memoria di notti
lucenti, addio grande sorriso. Il luogo era lì.
Respirare fu un buio di persiane, uno stare primitivo.
Silenzio e deserto si scambiavano volto e noi
parlavamo a una lampada. Il luogo era quello. I tram
passavano radi. Venere ritornava nella sua baracca.
Dalla gola guerriera si staccavano episodi. Non abbiamo
detto più niente. Il luogo era quello. Era lì
che stavi morendo.


O lugar estava imóvel, a palavra escura. Era aquele
o lugar estabelecido. Adeus memória das noites
reluzentes, adeus grande sorriso. O lugar era ali.
Respirar foi uma escuridão de persianas, um estar primitivo.
Silêncio e deserto se intercambiaram o rosto e  nós, outros,
fálávamos a uma lâmpada. O lugar era aquele. Circulavam
poucos bondes. Vênus regressava à sua barraca.
Desd’a garganta guerreira se desprendiam episódios. Não
dissemos nada mais. O lugar era aquele. Era ali
onde estavas morrendo.


Sunday, October 08, 2017

Uma poesia de Salvatore Ritrovato

ELEGIA PICOLLA                                             Salvatore Ritrovato

Ogni giorno è il primo e l’ultimo
se dietro cessa di esistere
fitto e solido il tuo futuro.
Stacco dall’album delle foto schegge
alcune limpide altre sbiadite:
temi di sorridere e da tempo lasci
frusciando come un’ombra leggera
e impertinente questa valle.
Dove vai oggi? Fa notizia
la coppia che vive scissa, ognuno
tiene alla sua metà di agio
privato, sempre in tregua,
e noi che abbiamo il desiderio
di stare insieme anche nel buio?
Dove non conta niente forse
neanche questo muro di gente
che sposta i tuoi piccoli passi
e scompare dopo una calle,
come l’albero che perde un fiore,
un fiore che lascia l’albero.

Pequena Elegia

Cada dia é o primeiro e o último
se o atrás cessa de existir
largo e sólido o teu futuro.
Destaco do álbum de fotos fragmentos
alguns nítidos outros deteriorados:
temes sorrir e desde algum tempo deixas
rangendo como uma sombra ligeira
e impertinente este vale.
Onde vais hoje? De que fala
a parelha que vive separada, se a cada qual
lhe importa sua metade de comodidade
privada, sempre em trégua,
E nós, outros, que sentimos o desejo
de estarmos juntos também na escuridão?
Onde nada conta, talvez,
nem este muro de gente
que desprega teus pequenos passos
e desaparece depois de uma rua,
como a árvore que perde uma flor,
uma flor que deixa a árvore.

Ilustração: Jardim das Ideias.

Friday, October 06, 2017

Uma poesia de Paul Nougé


PASSAGE DE MIDI

Paul Nougé

Le parfum de ce corps écartait les vêtements trop faibles et la clarté oblique de la chair achevait de dénuder la femme blanche mollement étendue.
Les cloisons de la chambre ne résistaient pas davantage et bien que l’on fût à l’instant de midi, les fenêtres s’emplirent soudain d’une épaisse nuit sucrée.
Les mains parlaient à la blancheur abandonnée que l’on savait délicieusement tendue de sang et les ventouses des yeux en gorgeaient la tête avide.
Enfin, la forte roue de l’ivresse entraîna cet univers nouveau qui
Retrouvait ainsi la marche liquide des premiers instants du monde.

A PASSAGEM DO DIA 

O perfume de seu corpo descartava as roupas por demais ligeiras e a luz oblíqua da carne acabava por desnudar a brancura da mulher levemente reclinada.
As paredes do quarto não conseguiram resistir e, embora fosse pleno meio dia, as janelas de repente se encheram de uma noite espessa e doce.
As mãos falavam à brancura abandonada que estava deliciosamente tensa de sangue, e os glóbulos dos olhos engoliam sua ávida cabeça.
Enfim, a roda forte da embriaguez arrastou esse novo universo que
retornou assim ao curso líquido dos primeiros momentos do mundo.

Thursday, October 05, 2017

Uma poesia de Victoria Sibelle


Espejos rotos

Victoria Sibelle

“...voy dejando pedazos de vida atrás”Juan Rulfo
  
Quizás eso es lo terrible, despertarme en un gran escalón sin saber a donde voy.
Pensar, tal vez, que esa mitad del camino es el final de todo.
El subir o el bajar me resultan igual de difícil. Los pasamanos están lejos, aunque ellos se acerquen no podría tomarlos. Nada me alienta a cambiar la cómoda posición. Lo de abajo ya lo pasé, ya dije basta una vez, y soy persona de una sola palabra, o por lo menos respeto las varias que pude haber dicho.
Arriba está ella, jamás me dijo que subiera,
pero es hiriente la forma en que espera, lo sabe.
En mi escalón mando yo, es como el “patrón de la vereda” que jugaba
cuando era chica, nadie entra ni puede pasar sin que yo quiera, si no, lo toco.
Y no juega más.
No es que me guste hacerlo, pero el juego es así.
A mí me lo hicieron muchas veces, cada vez que quería ir al escalón de alguien.
Donde esta ella no hay escalones, y eso me anima un poco.
Me daría miedo que baje a buscarme.
Es peligroso andar por escalones que uno nunca pisó.
No quiero que se lastime.
Pero, más que por ella, es por mí.
No me quiero doler de amor. 

Espelhos quebrados

“...vou deixando pedaços de vida atrás” Juan Rulfo

Talvez isto seja o terrível, acordar-me em um grande escalão sem saber para onde vou.
Pensar, talvez, que a meio caminho é o fim de tudo.
O subir ou o baixar me parecem igualmente difícil. Os corrimãos estão longe, e ainda que eles se aproximem não poderia alcançá-los. Nada me encoraja a mudar da comoda posição. A de baixo já passei, já disse basta uma vez, e sou uma pessoa palavra, ou, pelo menos, respeito as vários que posso ter dito.
Acima está ela, jamais me disse que soubera,
porém, é inerente à forma como espera, o sabe.
Em meu escalão  mando eu, é como o "patrão da calçada" que jogava
quando era criança, ninguém entra nem pode passar sem que eu queira, se não, o toco.
E não joga mais.
Não é que me goste fazê-lo, porém, é o jogo.
A mim,  me fizeram muitas vezes, cada vez que queria ir ao escalão de alguém.
Onde ela está não há escalões, e isto me anima um pouco.
Me daria medo que baixasse para me buscar.
É perigoso andar por escalões que nunca se pisou.
Não quero que se lastime.
Porém, mais que por ela, é por mim.
Não quero me ferir de amor.

Ilustração: Instituto Brasileiro de Coaching.


E, de volta, a poesia de Berna Wang


PEQUEÑOS ACCIDENTES CASEROS                                     

Berna Wang

Me hice un tajo en un dedo cuando cocinaba.
Luego me despellejé otro dedo al abrir una botella.
Hoy me he raspado la pierna con el pico de la mesita.
Así que me he puesto seria:
he reunido en asamblea a todos los objetos de mi casa
y les he dicho que ya sé
que me muero de la pena,
que tengo el corazón en carne viva,
que ya sé
que no soy más que una herida que sangra tristeza,
que hasta respirar me duele porque él no me ama
como le amo yo;
en fin: que no hace ninguna falta, les he dicho,
que me lo recuerden también ellos
cada día.

(de Pequeños accidentes caseros, Ramada Ediciones, Madrid, 2004)

Pequenos acidentes caseiros

Eu fiz um corte num dedo quando cozinhava.
Logo arranhei outro dedo ao abrir uma garrafa.
Hoje raspei a perna com o bico de uma mesinha.
Assim o que me dizem seria:
que reunidos em assembleia todos os objetos na minha casa
e lhes disse que já sei
que morro de dor,
que tenho o coração em carne viva,
que já sei
que não sou mais que uma ferida que sangra tristeza,
que até respirar me dói, porque ele não me ama
como eu o amo;
Enfim: que não faz nenhuma falta, lhes disse,
que me lembrem também eles
todos os dias.

Ilustração: Todah Elohim.